terça-feira, 8 de novembro de 2011

Escola de Música Anthenor Navarro: 79 anos de resistência


Embalada pela melodia dos instrumentos de cordas, pela delicadeza das flautas e o vigor das canções, a Escola de Música Anthenor Navarro (EMAN) preserva, em si, um exemplo de força e resistência. A história dessa escola, que iniciou como instituição privada, expõe a luta de músicos, políticos dedicados à educação e apreciadores das artes. Eles tentaram posicionar o estado da Paraíba em patamares elevados no âmbito educacional e artístico. Não apenas tentaram, como conseguiram fazer desse estado um polo de educação musical reconhecido nacionalmente na década de 1930.
Cantos orfeônicos realizados por alunos das escolas públicas se apresentavam constantemente nas ruas de João Pessoa juntamente com a banda da Polícia Militar. Lideranças dos poderes judiciário, legislativo e executivo ouviam as canções das crianças e dos adolescentes durante eventos importantes. Logo apareceria no cenário da história da Paraíba um nome que se tornaria conhecido no Brasil, principalmente por ter acompanhado diversas vezes o músico Heitor Villa-Lobos. Eclodiria, em meio às mudanças políticas de 1930, o mestre da música e compositor, Gazzi de Sá.
“Gazzi de Sá foi um promotor cultural. Ele possuía na década de 1930 uma coluna no jornal A UNIAO que divulgava artistas plásticos, pintores, recitais de poesia e músicos. A cada semana tinham concertos habituais em João Pessoa, promovidos pela Sociedade Musical, que era uma sociedade organizada por Gazzi de Sá e alguns amigos para promover concertos e trazer músicos do Brasil e do exterior”, afirma a professora Luceni Caetano que, em sua tese de doutorado, destrincha a história cultural da Paraíba entre as décadas de 1930 e 1950. Segundo ela, os maiores artistas do mundo passavam por João Pessoa.
Como músico, Gazzi de Sá criou um método de ensino musical utilizado até hoje pela Escola de Música. Segundo Luís Carlos Durier, vice-diretor da EMAN, essa metodologia é uma forma de estudar a música prosodicamente, a compreendendo como conjunto de frases musicais que dialogam. “O método torna o estudo musical muito mais fácil porque a música é composta de frases contendo perguntas e respostas com ideias prefixadas através do ritmo. Pessoas que estudam com este método, analisando a música desta forma, têm uma leitura musical bastante desenvolvida”, explica Durier, que também é regente da Orquestra Sinfônica da Paraíba/Jovem.
Apreciador das artes e amigo de infância de Gazzi de Sá, Anthenor Navarro era o Interventor Federal da Paraíba quando o “Curso de Piano Soares de Sá”, criado por Gazzi de Sá, passou a ser chamado de “Escola de Música”. Isso aconteceu em 1º de fevereiro de 1931, considerado o dia de fundação da instituição. Com a morte do político, o músico, a fim de homenageá-lo, batiza a escola com o nome “Escola de Música Anthenor Navarro”, em 1932. Somente no governo de José Américo de Almeida, 21 anos depois, a EMAN se tornaria uma instituição pública.
Segundo Luceni Caetano, a Escola de Música Anthenor Navarro foi o principal órgão do ensino de música da Paraíba, pois todos os acontecimentos neste âmbito eram voltados para a EMAN ou organizados por ela. “O acontecimento mais importante de 1952 foi a criação do Conservatório de Música do estado, quando a EMAN tornou-se escola oficial da Paraíba. É interessante destacar que em todo o Brasil só existia Conservatório de Canto Orfeônico no Rio de Janeiro, criado por Villa-Lobos, e em São Paulo. Naquele ano, foi fundado o Conservatório de Canto Orfeônico da Paraíba, que passou a funcionar nas dependências da EMAN”, comenta Luceni que esclarece que o Conservatório de Canto seguiu em paralelo com a Escola de Música até 1963, quando finalizou seus trabalhos e a EMAN prosseguiu.
Para a diretora da Escola de Música, Vólia Simões, a EMAN ocupa posição importante na história cultural da Paraíba. “O movimento musical da Paraíba era totalmente voltado para a Escola e, além disso, era ela que promovia concertos na cidade, trazendo artistas nacionais e internacionais, gente importante que fez história no cenário musical”, afirma Vólia. Essas promoções culturais eram realizadas juntamente com a Sociedade Musical.
“Eu considero a Escola de Música uma das escolas mais eficientes na área de educação musical. É uma referência e herança criada por Gazzi de Sá”, afirma Luceni, que também explica as dificuldades enfrentadas pela instituição, por nunca ter conseguido um estabelecimento fixo. “Apesar de estar situada no Espaço Cultural, e aquele ambiente ser tão extenso, a EMAN encontra-se em local bem reduzido, mas tem conseguido realizar um bom trabalho, mesmo com todos os problemas estruturais”.

Dificuldades Estruturais: uma questão histórica ou política?

Anthenor Navarro havia projetado um edifício com estrutura compatível com as necessidades da EMAN. Contudo, por causa de sua morte repentina em um acidente de avião, no dia 26 de abril de 1932, o projeto não foi realizado. Até hoje, depois de 79 anos, a Escola de Música ainda não possui uma sede própria. “O governo precisa voltar a dar atenção à escola. A escola faz uma ‘ginástica’ [sic] enorme para funcionar. Manter uma escola aberta é muito pouco, o papel do governo não é manter uma escola aberta, mas incentivar”, desabafa Marco Antônio, professor de flauta doce.
Atualmente a Escola de Música se encontra localizada na FUNESC (Fundação Espaço Cultural), em João Pessoa. Sua estrutura é considerada imprópria para abrigar uma escola de música, pois o espaço é pequeno, não possui estrutura sonora adequada nem tampouco boa climatização. “Estou dando aula nesta sala que não é apropriada para o saxofone, pois não tem acomodação adequada e nem tratamento acústico e climatização adequados”, afirma Heleno Feitosa Costa Filho, conhecido na Paraíba como Costinha, professor de saxofone e fagote.
Para Costinha, que também é instrumentista da Orquestra Sinfônica da Paraíba, essas dificuldades estruturais influenciam na desenvoltura do profissional e também do aluno. “A escola está necessitando de um local próprio e adaptado às suas necessidades para melhor desempenho da função dos profissionais que aqui trabalham”, prossegue o músico, que tem seu trabalho reconhecido em todo o estado e fora.
Quando a Escola de Música foi implantada, Anthenor Navarro cedeu uma casa pertencente ao poder público para seu funcionamento, embora ainda fosse uma instituição particular. Foram fornecidos quadros-negros, cadeiras, mesas e carteiras. O professor Gazzi de Sá transportou seu próprio piano para a Escola, a fim de utilizá-lo durante as aulas. Com a morte do político, o músico prossegue sem incentivo governamental e a escola inicia uma crise estrutural que permaneceria por toda sua história.

O início de uma peregrinação

O governo do estado solicita a desocupação da casa para instalar a Guarda Civil naquele local. A escola se desloca para a residência dos pais de Gazzi de Sá e, logo em seguida, para a casa de Gazzi de Sá, em 1936. Em sua residência, ele leciona juntamente com sua esposa, Ambrosina de Sá, enquanto Luzia Simões, tia da atual diretora da EMAN, atuava na secretaria e era responsável pela iniciação do ensino. Nessa época, a Escola de Música era frequentada pela alta sociedade paraibana e oferecia também curso de balé.
Posteriormente, com o crescente número de alunos, a escola se muda para um ambiente maior. O local, que chegou a abrigar a antiga sede do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba, é o mais lembrado pela população, sendo por vezes creditado como o primeiro prédio que instalou a EMAN. A escola permanece nesse prédio até 1947, ano em que Gazzi de Sá, sua esposa Ambrosina de Sá e seus dois filhos viajam para o Rio de Janeiro, onde passam a residir.
Com a saída do maestro para o Sudeste do país, a Escola de Música se torna responsabilidade de Luzia Simões, que assume todas as atividades musicais da Paraíba. Com mais de dez anos de existência, a EMAN já possuía professores que tinham sido alunos de Gazzi e passa a funcionar na residência de Luzia Simões, porém sem instalações adequadas. Por causa da falta de estrutura e crescimento do número de alunos, Luzia Simões pediu aos professores que lecionassem em suas próprias casas, mas a Escola de Música Anthenor Navarro continuou a existir como instituição.
O antigo problema estrutural é o mesmo enfrentado nos dias atuais. “A escola precisa de um espaço bem maior, porque a quantidade de alunos é imensa e, se falar somente em espaço físico de salas, não dá para atender todo mundo que queira aprender algum instrumento”, comenta Cyran Costa, professor de violão da EMAN e regente da Orquestra de Violões da Paraíba. Ele explica que a quantidade de estudantes frequentando aulas de teoria musical é bem maior do que as de instrumentos. Isso por causa da falta de estrutura física e ausência de professores suficientes para suprir a demanda. “É uma escola do estado e, portanto, deveria ter mais incentivo nesse sentido”, completa Cyran.
Em 1950, José Américo de Almeida vence as eleições e torna-se governador da Paraíba. Sua amizade com Luzia Simões fez o político devolver à escola a casa cedida por Anthenor Navarro. Pela segunda vez, a EMAN é instalada naquele local. Em 1952, ainda sob governo de José Américo, a Escola de Música foi oficializada como instituição pública. Mas sua odisséia retornaria em 1956, no governo de Flávio Ribeiro Coutinho, quando a EMAN teve que ser retirada para construção do edifício Epitácio Pessoa.
Com a desocupação, a Escola de Música se tornou nômade por quase um ano, chegando a funcionar em um dos salões do Palácio do Governo. Foram ministradas aulas inclusive na biblioteca pública, no Tribunal de Justiça e na Academia Epitácio Pessoa. Até que em 1957, foi transferida para uma casa ao lado da Catedral Metropolitana, onde permaneceu por cinco anos, sendo transladada para outra casa, em 1963, ano do término do curso de Canto Orfeônico. A Escola de Música permaneceu nessa última residência até 1974. Mais uma vez foi transferida, retornando ao quarto prédio que ocupou.
Em 1969, durante o governo de João Agripino, formula-se um novo projeto para construção de uma sede definitiva para a EMAN. Mas da mesma maneira que aconteceu na época de Anthenor Navarro, o plano não foi concretizado. No local que seria estruturada a escola, foi construído o colégio Sesquicentenário. Em 1979, a EMAN é transferida mais uma vez e, finalmente, em 1983, no governo de Tarcísio de Miranda Burity, foi afixada no Espaço Cultural José Lins do Rego, onde permanece até hoje.
Porém, o local não é adequado para uma escola de música. “O espaço que a escola ocupa não é o suficiente. Temos quase mil alunos e chegou a um ponto que ela não cresce mais porque não tem estrutura física para crescer”, afirma o professor Marco Antônio. O professor de piano, Clístenes Cabral, lamenta a falta de investimentos por parte do poder público. “A Escola de Música é uma referência de formação em educação musical no estado, pena que esse trabalho que vem sendo desenvolvido não é realmente reconhecido, percebemos isso ao analisarmos o espaço físico e a falta de incentivo na formação e aprimoramento dos professores”.
Um dos maiores problemas é a falta de acomodação sonora. As aulas de saxofone, mesmo em salas fechadas, são ouvidas pelos corredores da escola. O curso de percussão teve que ser transferido para outro local porque dificultava o estudo do piano e principalmente da teoria musical. As pessoas que frequentam o ambiente da Anthenor Navarro devem manter silêncio para que o ensino da viola não seja prejudicado por ser realizado em um local ao lado da sala de recepção.
Para Luís Carlos Durier, vice-diretor da EMAN, as pessoas que fazem a Escola de Música devem lutar pela construção de uma sede para a instituição. “Cabe a nós lutarmos e elaborarmos um projeto que ganhe a simpatia dos professores, funcionários, alunos e todas as famílias envolvidas com a escola, inclusive aqueles que já passaram por ela”. Durier explica que a conquista de um local fixo e adequado para abrigar a instituição deve ser um ideal daqueles que de alguma forma estão envolvidos com a EMAN. 

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